top of page

Banco Master: cronologia, excepcionalidades e o risco sistêmico que ninguém pode ignorar

A discussão sobre o Banco Master precisa começar por uma cronologia objetiva, porque é justamente nela que surgem as maiores dúvidas.

O primeiro ponto é a decisão de colocar o processo sob sigilo, por iniciativa do relator. Isso, por si só, já foge completamente do padrão observado em outras liquidações bancárias, inclusive em casos com indícios graves de fraude. Não há precedente recente de um caso dessa magnitude tratado dessa forma.

Esse sigilo causa estranheza porque não é novidade a existência de conflitos de interesse relevantes envolvendo o Banco Master. Há relatos consistentes de que familiares diretos — esposas e parentes de primeiro grau — estavam ligados a conselhos e empresas prestadoras de serviço ao banco, o que por si só já exigiria máxima transparência. Soma-se a isso o histórico de relações políticas, eventos e benefícios concedidos a figuras públicas. Em um caso assim, o mínimo esperado seria luz total, não escuridão.

A excepcionalidade aumenta quando se observa o comportamento do próprio relator, que teria viajado junto com advogados ligados ao banco, em um contexto social completamente incompatível com a gravidade do processo sob sua responsabilidade. Tudo isso amplia a percepção de conflito de interesses e quebra de imparcialidade, algo extremamente sensível quando se fala do sistema financeiro.

O papel do TCU: auditor não decide política monetária

Outro ponto central é o papel do Tribunal de Contas da União (TCU). O TCU é, por definição, órgão auditor. Sua função é verificar procedimentos, conformidade e legalidade, não substituir decisões técnicas de quem tem competência legal para isso.

Não cabe ao TCU decidir se um banco deveria ou não ser liquidado. Isso não é uma avaliação de opinião, é uma definição legal. O TCU pode — e deve — verificar se os ritos foram cumpridos, se houve irregularidades processuais, se as normas foram seguidas. O que ele não pode fazer é julgar a tecnicidade da decisão, muito menos anulá-la com base em juízo subjetivo.

Quando um relator do TCU afirma que a decisão foi “prematura” sem acesso integral às informações sigilosas que apenas o regulador possui, ele ultrapassa claramente sua função institucional. Isso se torna ainda mais grave quando o próprio relator tem ligações políticas e relações indiretas com o mesmo ambiente que recebeu benefícios do banqueiro investigado.

O risco real: não é o banco, é o sistema

Aqui está o ponto mais importante:o problema não é salvar ou não o Banco Master — o problema é o risco sistêmico.

O Banco Central do Brasil é uma das poucas instituições brasileiras com respeito internacional consolidado. Não se trata de governo A ou B, nem de presidente X ou Y. Trata-se de credibilidade institucional.

Quando se permite ingerência política ou judicial sobre decisões técnicas do Banco Central, o que se coloca em risco não é apenas uma instituição financeira, mas todo o sistema financeiro nacional — e, por consequência, a confiança na moeda.

O sistema financeiro cria crédito. Crédito cria dinheiro. Dinheiro exige confiança.Sem confiança, surge prêmio de risco.Com prêmio de risco, temos juros mais altos, dólar mais caro, inflação pressionada e perda de poder de compra da população.

Ou seja, para tentar salvar um agente específico, corre-se o risco de onerar um país inteiro.

A decisão foi prematura? O mercado já sabia a resposta

A narrativa de que a intervenção teria sido “precipitada” não se sustenta tecnicamente.

O mercado sabia — e sabia há muito tempo — que o modelo do Banco Master não era sustentável no longo prazo. Spreads excessivamente agressivos, carteira longa, risco elevado e crescimento sem capital próprio suficiente são sinais clássicos de estresse.

O mercado não falava publicamente por um motivo simples:não é papel do mercado acusar ou intervir.Quem tem acesso às informações completas são os reguladores. Muitas dessas informações não são públicas — e nunca serão.

Aliás, a percepção dominante no mercado é justamente o oposto:90% dos agentes entendem que a decisão do Banco Central foi tardia, não precoce.

Tentativas de narrativa e pressão institucional

Há ainda indícios de que o banco tentou financiar narrativas, inclusive por meio de influenciadores, para criar um ambiente político favorável à reversão da decisão. Isso, se confirmado, é gravíssimo e reforça a necessidade de investigações profundas, inclusive pela Polícia Federal.

O recuo posterior do TCU, afirmando que “apenas cumpria seu papel”, confirma algo essencial:👉 a decisão técnica é — e sempre foi — do Banco Central, como estabelece a lei.

Conclusão: transparência não é opcional

O que se espera, especialmente do Supremo Tribunal Federal, não é a divulgação de informações sigilosas de mercado, mas transparência institucional mínima, clareza de procedimentos e respeito às competências legais.

Casos como esse não podem se repetir, porque o custo não recai sobre banqueiros ou políticos — recai sobre a economia, sobre o crédito, sobre a moeda e, no fim, sobre a população.

O Banco Central precisa ser preservado.Não por corporativismo, mas por sobrevivência sistêmica.


 
 
 
bottom of page